Cuidado, que a genialidade se veste de nudez também…
Archive for março, 2010
Sexta-feira passada esteve em casa o senhor que afina meu piano. Afinar um piano não é como afinar um violão, embora ambos os casos se resumam em girar uma tarracha presa à corda. Pensando bem, melhor dizer a verdade e esclarecer que maior parte das notas de um piano são compostas por três cordas. Um piano afinado é afinado vezes três.
Esse senhor, meu afinador, chama-se Teskla. Com nome de físico e já com certa idade, perambula pela cidade de São Paulo, com sua necessária bengala, afinando o instrumento dos pianistas fora do tom.
Trata-se – e que isso fique claro – de um ser humano admirável. Um senhor de idade que resguarda os benefícios de um ofício ambígüo, na fronteira do invisível com o imprescindível. Há apenas uma situação em que se pode vê-lo sem bengala: quando afina um piano. Quando afina um piano, deixa o apoio de lado, desmonta o móvel de madeira e teclas e não há o que possa derrubá-lo. É incrível a força nos finos braços e pernas deste devoto pela perfeição harmônica.
Devo contar sobre a noção de humanidade que me oferece Teskla.
Jamais esquecerei da primeira vez que meu piano foi afinado por ele. Esse dia foi marcado pela comoção em ver um homem trabalhador andar pelos próprios pés até um distante ponto de ônibus, com a finalidade de compartilhar seu trajeto com o povo até os pés da Serra da Cantareira, onde reside.
Lembro-me de ter ficado repleto de um sentimento de preocupação, de zelo, pelo fato de achar uma calamidade um senhor de idade e de bengala andar um belo trecho em busca da condução que o levasse ao conforto do lar.
Devo colocar meus colegas de juventude nesse texto e exalar uma interrogação fundamental: conseguiremos viver com tamanho vigor quando passarmos dos setenta? Ou será que seremos tão baixos a ponto de de abandonar a simplicidade e beleza de uma vida de luta? Penso em meu pai.
A lembrança eterna que persistirá é a de quando precisei de deixar Teskla a sós ao piano, dessa última vez. Cumprimentei-o comunicando que deveria sair para o ensaio da Fabulosa. Ele pediu para que não me incomodasse e que ficasse calmo, pois o instrumento seria deixado em perfeito estado, sem sombra de dúvida.
Nesse momento, não pude ignorar a velha lembrança da andança até o ponto de ônibus. Estava chovendo e o preço da afinação provavelmente não faria fazer valer o táxi.
Nesse meu momento de aflição pela integridade de Teskla, ele me estendeu os braços e me abraçou, dizendo que havia sido um grande prazer em me ter visto. Disse-me para que eu fosse com cuidado para o ensaio e que prestasse atenção nos semi-tons. Disse-me: “Áté a próxima”.
Fui, por certo, elevado para um lugar bem melhor. Fui levado ao futuro harmônico.
Retirei-me, então, com destino ao ensaio. E chorei. Chorei, no carro, a tristeza em tê-lo deixado; a alegria em tê-lo visto; a certeza de que há bondade o bastante para se chegar à plena paz.
Publicado originalmente em 17 de fevereiro de 2008.
Republicado.
@paulogianini
Se você acreditasse que é possível algo surgir do nada; se você apostasse no nada como fonte de grandes idéias, daria sua vida ao nada, esperando que o nada fizesse dela algo melhor que você?
Talvez seja uma questão de humildade; eu mesmo já cheguei a me considerar levemente menos útil que o nada. Diante disso, entreguei-me ao nada para ter uma idéia. Nada existe dentro de você, a não ser você mesmo. Na verdade, cá entre nós, possuímos duas coisas com as quais podemos contar durante todos os milésimos de todos os segundos durante os quais vivemos: o nada e nós mesmos. É muito remota a possibilidade de controlarmos tudo o que existe; ainda assim, não nos damos conta de que o nada é muito mais vasto que o tudo. Mas na imensidão do vazio há algum aspecto que o permite criar com freqüência maior que o tudo.
Mas o nada não se define pela ausência? Talvez até ausência de si próprio. Daí eu digo que o nada satisfaz a si próprio e o faz da seguinte maneira: criando. O nada me atinge de uma forma muito mais eletrizante do que o tudo; criar dentro de tudo o que existe chega a ser redundante. Precisa de abrir espaço, conversar com as leis da física, ser mais educado que o merecido…
Criar a partir do nada, isso sim é liberdade.
