Em verdade, a localidade virtual dessa publicação se deve à dimensão pessoal que seu conteúdo tomou durante sua elaboração.

Não tenho clara lembrança, mas acredito que tenha ocorrido dessa forma:

Em um indeterminado sábado do ano de 2006, acordei. Desci para tomar café da manhã, quando meu pai me surpreendeu com a seguinte situação: “Começo aulas de piano hoje; quer ir comigo?”

A decisão que tomei explica o motivo de eu estar aqui, nesse muito determinado momento, chegando às cinco da manhã, escrevendo essa particular publicação. Porque, artisticamente, eu nasci quando respondi ao meu pai que sim; eu o acompanharia àquela aula de piano, mais tarde esclarecida como pretexto, para que minha vida fosse jamais considerada como retilínea.

À época, considerei como fundamental o seguinte conceito: reproduzir a obra alheia é alimentar o próprio tédio. Ainda que seja necessário partir de algum lugar; ainda que seja importante aprender com as músicas daqueles que são nossos ídolos, o ânimo de se dominar um instrumento não pode ser o de, mais tarde, reproduzir a infinitas obras daqueles que nos influenciaram. O ânimo de se dominar um instrumento de arte é justamente contribuir ativamente para ela, nunca por tabela ou por interposta pessoa.

A obra artística que é sua assim o é por razão da própria natureza da existência. Não há existência desprovida de criatividade. Em verdade, não há existência sem criatividade, ou não concordam que a singular constância do universo seja simplesmente genial?

Por mais emocionante que seja, reproduzir por instrumento de arte as grandes obras já produzidas não deve servir para algo que não seja o aprendizado, este voltado sempre para a produção de algo inédito.

Com permissão, argumento interrogativamente: quando decidimos ter um filho, queremos que ele seja igual a nós, igual aos nossos ídolos, ou que seja uma forma de vida nova, plena e criativa?

Nós somos toda a família de nossas obras de arte; somos pais, filhos, irmãos, avós, tios e primos daquela arte que produzimos e sobre ela temos a responsabilidade de fazê-la útil aos seres vivos e não vivos que nos rodeiam.

Hoje mesmo estive no meio de um grupo de instrumentistas geniais.

Entretanto, estávamos lá apenas para suprir as necessidades básicas de nossa sobrevivência. E buscávamos inovar dentro do consagrado. No máximo, isso significa que o aprendizado foi, até aquele momento, cumprido. Porém, foi cumprido e colocado em algo não inédito, resultando no uso precário de grande potencial. Pior: para fins de venda.

Na verdade, trata-se de um milagre, para quem aprecia o termo. Inovar dentro do consagrado constitui criar som no vácuo artístico. Isso para vender aquela apresentação para que tem medo de inovar.

Sinto-me esclerosado, na verdade. Repetindo o que todos já sabem… Eu devia ter vergonha. Grandes instrumentistas tocando música dos outros! Seres criativos reproduzindo obra alheia sob o argumento de que não se sobrevive de arte autoral no Brasil. Claro, quantos escrevem e quantos apenas re-escrevem? Vivemos no país do “copy-paste“, mas só porque esse comando é sobre-estimado.

Mas eu tenho vergonha na cara.

Chega de ser peça sobressalente de cultura.

Vou cumprir minha agenda porque profissionalismo é fundamental. Depois disso, a bandeira da arte autoral será minha única.

Se eu morrer de fome por causa disso, não tem problema. Isso acontece. Mas meu coração será o último a esfriar; minha arte será a última a se decompor.

Se não pelos frutos, pelas sementes, que tanto nos tem a oferecer.

Eu componho, mas não é porque seja a única coisa que eu tenha. É a única coisa que eu quero ter. É só dela que eu vivo. É por causa dela que eu sou.