Se você acreditasse que é possível algo surgir do nada; se você apostasse no nada como fonte de grandes idéias, daria sua vida ao nada, esperando que o nada fizesse dela algo melhor que você?
Talvez seja uma questão de humildade; eu mesmo já cheguei a me considerar levemente menos útil que o nada. Diante disso, entreguei-me ao nada para ter uma idéia. Nada existe dentro de você, a não ser você mesmo. Na verdade, cá entre nós, possuímos duas coisas com as quais podemos contar durante todos os milésimos de todos os segundos durante os quais vivemos: o nada e nós mesmos. É muito remota a possibilidade de controlarmos tudo o que existe; ainda assim, não nos damos conta de que o nada é muito mais vasto que o tudo. Mas na imensidão do vazio há algum aspecto que o permite criar com freqüência maior que o tudo.
Mas o nada não se define pela ausência? Talvez até ausência de si próprio. Daí eu digo que o nada satisfaz a si próprio e o faz da seguinte maneira: criando. O nada me atinge de uma forma muito mais eletrizante do que o tudo; criar dentro de tudo o que existe chega a ser redundante. Precisa de abrir espaço, conversar com as leis da física, ser mais educado que o merecido…
Criar a partir do nada, isso sim é liberdade.
