Archive for novembro, 2010


Corda Bamba e A-Quarup: uma experiência em direção musical.

Previsivelmente, o presente texto não se presta a descrever ou fazer propaganda desses espetáculos, pois que dispensável. Presta-se, efetivamente, a elogiar os verdadeiros merecedores: os dois elencos e o processo que conduziu a esse resultado belíssimo.

Foi com humildade e  ânimo de atender às necessidades dos espetáculos em apreço, que me deparei  com um paradigma ímpar em matéria de teatro. Pois que não basta a dramaturgia sofisticada. A condução do processo é fundamental. Porém, não basta a condução do processo; a dedicação do elenco é peça chave.

Tudo isso é para dizer que me deparei não só com o brilhantismo da condução de Thais Aguiar, mas também com a dedicação interminável de dois elencos fantásticos que prescindiam, sem saber, de um diretor musical. Precisavam, em verdade, de alguém que lhes dissesse, apenas: “vocês podem, vocês vão”. E foi nesse processo de convencimento empírico que passei de diretor a aluno; e de aluno a público.

É sempre presumível, o aprendizado… Mas, nesse tamanho, nem tanto presumível quanto espantoso.

Agradeço, com entusiasmo e lágrimas, o fato de ter sido ouvido durante esse processo. Todos acreditaram em mim sem qualquer garantia de que eu estivesse correto. Eles certamente foram mais corretos do que eu. Que eles recebam o devido crédito por todas as notas corretas e eu a culpa pelas notas erradas.

Não basta dizer que meu currículo aumentou com essa experiência. Faz-se mister dizer que fui presenteado com os ouvidos, a dedicação e a maestria de dois elencos aos quais entrego com alegria o meu nome, por saber que este será levado apenas aos melhores lugares imagináveis.

A ambos os elencos, vale lembrar – porque lembrar é muito mais excitante do que esquecer: vocês são do tamanho de seus sonhos… E, quem diria(?), eu também.

Para sempre grato,

Paulo.

 

Sons abaixo do zero…

Certo homem, certa vez, em certa região gelada, num certo momento frio, segurando um certo violão, percebeu que o instrumento em questão havia congelado.

Ao perceber tamanho efeito gélido, enconstou o violão no iceberg mais próximo e passou a indagar como faria para tocar naquele que era sua única esperança: o violão, que agora era mais um “frozen guitar” do que qualquer outra coisa.

Triste e desamparado, já que não podia mais musicar suas lamúrias, apelou para a memória e resgatou todas as aulas de física que tivera no passado. Sobre elas, recordou de um singular e intacto conceito segundo o qual nada poderia jamais acontecer: o zero absoluto.

“À temperatura de 273 graus Celcius negativos, toda a matéra congela e nada avança na dimensão do tempo; não há morte e não há vida. Tudo simplesmente se resume àquele momento onde o sim e o não perdem toda a sua dialética, a vida e a morte se confundem na fronteira em que tudo existe, porém, nada ocorre. Os verbos perdem o infinitivo e todos os seus outros tempos…”.

O homem, agora abaladíssimo, vislumbrava a vida eterna, sem tempo, e podia recordar apenas das músicas que haviam marcado sua vida. Sua infância, adolescência, vida adulta e adúltera, haviam se transformado em sons, músicas, melodias que descreviam rigorosamente todos os específicos momentos de sua existência. Por que músicas? Por que sons?

Como poderia ser que, após toda a vida do mundo, inclusive a dele, haver parado no tempo, congelado em absoluto, louca para acordar um dia, ele ainda podia perceber os sons que marcaram a história de sua vida e de todo o mundo? Como poderia ser que, mesmo a história de todo o universo não se perdera na espera eterna do zero absoluto?

Mas o som não congela; ele flui, a despeito de toda a outra e menor existência… Você se esquece, mas o som é memória. Ele vai fugir daqui, sem você, se preciso for.

Pensando com seus bordões, concluiu: existe som abaixo de zero – o som não congela.

Dia da música: para sempre será.

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