Certo homem, certa vez, em certa região gelada, num certo momento frio, segurando um certo violão, percebeu que o instrumento em questão havia congelado.

Ao perceber tamanho efeito gélido, enconstou o violão no iceberg mais próximo e passou a indagar como faria para tocar naquele que era sua única esperança: o violão, que agora era mais um “frozen guitar” do que qualquer outra coisa.

Triste e desamparado, já que não podia mais musicar suas lamúrias, apelou para a memória e resgatou todas as aulas de física que tivera no passado. Sobre elas, recordou de um singular e intacto conceito segundo o qual nada poderia jamais acontecer: o zero absoluto.

“À temperatura de 273 graus Celcius negativos, toda a matéra congela e nada avança na dimensão do tempo; não há morte e não há vida. Tudo simplesmente se resume àquele momento onde o sim e o não perdem toda a sua dialética, a vida e a morte se confundem na fronteira em que tudo existe, porém, nada ocorre. Os verbos perdem o infinitivo e todos os seus outros tempos…”.

O homem, agora abaladíssimo, vislumbrava a vida eterna, sem tempo, e podia recordar apenas das músicas que haviam marcado sua vida. Sua infância, adolescência, vida adulta e adúltera, haviam se transformado em sons, músicas, melodias que descreviam rigorosamente todos os específicos momentos de sua existência. Por que músicas? Por que sons?

Como poderia ser que, após toda a vida do mundo, inclusive a dele, haver parado no tempo, congelado em absoluto, louca para acordar um dia, ele ainda podia perceber os sons que marcaram a história de sua vida e de todo o mundo? Como poderia ser que, mesmo a história de todo o universo não se perdera na espera eterna do zero absoluto?

Mas o som não congela; ele flui, a despeito de toda a outra e menor existência… Você se esquece, mas o som é memória. Ele vai fugir daqui, sem você, se preciso for.

Pensando com seus bordões, concluiu: existe som abaixo de zero – o som não congela.

Dia da música: para sempre será.