Nunca aconteceu de alguém me olhar com olhar de adeus. Mas já não sei se isso de fato não houve, ou se foi de tanto evitar os olhos quando as circunstâncias sugeriam tamanha despedida, que passei sem notar.

Até onde eu consigo supor, tudo deve ter começado por causa de um anúncio, em formato de outdoor , adjacente a uma já inexistente academia na Avenida Morumbi, logo antes da ponte, no sentido Santo Amaro.

Nunca fui capaz de ler o conteúdo efetivo do anúncio, pois que passava sempre de carro e muitas vezes com sono. Mas havia uma figura que, aos poucos, toranava tudo muito difícil: uma joaninha de cabeça baixa, humilde, que levava em seu ombro um cabo de vassoura com uma pequena trouxa na ponta.

Eu não entendia nada de muita coisa; contava com no máximo doze anos de idade; mas aquela figura já banhava de tristeza o meu peito e por muitas vezes cheguei à escola evitando lágrimas.

Muitos anos depois, já vidrado nas obras perfeitas da música popular brasileira, passei a constatar como a obra em língua portuguesa é dominada em grande parte pela tristeza, pelo adeus, pelas histórias de gente a que se deve respeito apenas por terem passado por situações que nós não combateríamos com a menor resistência.

Toda essa perda, essa tristeza… Tudo isso me parece muito forte.

Nunca houve de alguém me olhar com olhar de adeus, mas de algum modo consigo imaginar exatamente como eu ficaria. Não como eu reagiria… Mas como meu peito se traduziria em angústia; como minhas mãos não serviriam para nada; como viraria sombra, de tanto sentir.

E por algum motivo, a imagem do coitado, a cabeça baixa e a trouxa na ponta do cabo de vassoura, veio-me avassaladora na última noite de domingo para segunda. Algo terrível, devo alertar.

Não sei (sabemos) ao certo que tipo de coisa leva alguém a derrubar o queixo e levar consigo, embora e pra sempre, uma trouxa na ponta do cabo de vassoura. Não sei.

E não é bem isso o mais impotante.

O importante é: nós todos sofremos. Em várias escalas e por vários motivos, carregamos uma quantidade indescritível de sofrimento.

E essa é a metáfora: Romaria, gente humilde, mais um adeus, cálice, asa branca, aço preto, o velho e a flor, atrás da porta, veja você…

Vejam vocês a quantidade de sofrimento que os gênios fazem questão de descrever. Metade de nós é dor; metade de nós é amor e metade é o que vem dessa mistura, numa matemática inacreditável, de tão triste que é.

“Quando olhaste bem no olhos meus/ e teu olhar era de adeus” (atrás da porta)

“descasei/ joguei/ investi/ desisti/ se a sorte… eu não sei/ nunca vi(…) Me disseram, porém/ que eu viesse aqui/ pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos”  (romaria)

Tem piedade de todo nosso sofrimento e nos recebe com sorriso de quem diz que vai ficar tudo bem. O que nos move em vida é a esperança reclusa de morrer em paz.

Sob toda naturalidade ainda não entendemos a metade da metade. Nos falta saber por certo.

São milhares de anos e temos tudo, exceto o que importa.

“Como não sei rezar, só queria mostrar meu olhar… meu olhar… meu olhar”