Dias atrás eu estava exatamente onde me encontro agora: no meu quarto, de frente para o monitor do meu computador pessoal – que de pessoal tem só o conceito, diga-se de passagem.
Por motivo mais de impulso do que de hábito, peguei a velha guitarra para lembrar de alguns acordes, tocar qualquer coisa, só para passar o tempo. Acabei me atrasando para qualquer coisa de que não lembro, já que do passatempo resultou uma nova composição (que mantenho em segredo, compreensivelmente).
Ajustei a harmonia, o mapa e, depois, com mais calma, trabalhei nas estrofes e nos refrões. Toquei, testei. Repeti. Retoquei. Aumentei. Repeti. Repeti. Cronometrei. Repeti. Avaliei. Cantei alto, baixo e a meio volume. Gostei.
Mais tarde, naquele dia, dirigi o carro faltando óleo do motor e com pouco combustível até Cotia, cidade na qual se dão os ensaio da @fabulosabanda. Nessa oportunidade, apresentei a nova música aos amigos integrantes – comparsas da arte, por um mundo melhor -, os quais se mostram favoráveis à música, dando a entender que poderia ser mais uma a entrar para o próximo disco.
Fiquei muito feliz e já comecei a pensar em várias opções para todos os instrumentos disponíveis; sabe como é? Para dar palpite no trabalho individual de cada um e na maneira com que iriam acrescentar suas performances audíveis.
Ocorre que, durante o ensaio habitual do repertório, dei-me conta de que isso era mais absurdo do que era necessário. Dei-me conta, na verdade, de algo no seguinte sentido: se há uma banda, a música era minha tão somente até o momento em que coloquei o pé do lado de fora do meu quarto. Menos ainda: era minha até logo antes de eu abrir a porta.
Daí me veio esse novo assunto: quando da composição, apegar-se ao mundo como um todo; à honestidade. Nunca minta dentro do seu próprio quarto: vai refletir na música e em sua honestidade artística. Quando da apresentação da música, o apego deve ser somente ao desapego.
Fiquei pensando em outra música de minha autoria, Ás de Copas, do primeiro disco da @fabulosabanda. Minha satisfação pessoal em relação a essa música chegou faz apenas poucos meses. O disco é do último Dia do Curinga, 29 de fevereiro de 2008. Isso significa que a música, antes, não era boa? Longe disso. Trata-se da verificação da evolução, da maturidade, da sonoridade.
O resultado de uma produção é aquele que acompanha o que há de homogêneo na banda até aquele momento. O mundo não acaba amanhã. Eu não me aposento amanhã. Horóscopo é uma ilusão. Não somos perdedores e assim por diante.
O que quero dizer é o seguinte: a despeito das minhas pretensões em relação a uma determinada autoria, seu resultado é sempre o melhor possível. É como diz @igordisco: “o melhor show é sempre o último”.
A versão de ontem é quase a mesma; mas vale a de hoje. Qualquer coisa é só mudar; é nosso mesmo…
Ou seja, amigo compositor, não há produtor que estrague música. Lembre-se: saiu do quarto, não mais te pertence. Pode compor à vontade, mas pule a parte da pretensão e vá direto ao resultado. Diga, apenas: “perfeito; até a próxima versão”, na pior das hipóteses.
Hoje, não consigo acreditar que exista versão que prejudique a essência.
A música, como o universo, ela simplesmente é.
É por isso que eu adoro física quântica.
Deixa na mão deles; eles sabem o que fazem.
“Quer saber/ da maior das loucuras?/ É uma figura/ aprender a falar”
Ás de Copas – Paulo Gianini
Na verdade, Fabulosa Banda do Curinga.
