Aproximadamente há um ano, trocava idéias e conceitos com o empresário e baterista Washinton Viana, de quem ouvi, em síntese, a seguinte conlusão:
No Brasil, o músico precisa de se apresentar ao vivo o máximo de vezes que conseguir para obter seu sustento. A venda de discos, seja no cenário independente, seja nos vínculos contratuais com gravadoras, não representa o sustento do artista. Quando a relação sustento-trabalho invade o cotidiano do processo criativo a arte não evolui e vive-se mal.
Essa conversa, em verdade, foi o início das considerações que deram origem ao Primeiro Manifesto para o Fomento da Arte (http://paulogianini.wordpress.com/2008/12/03/101/), que faz aniversário de um ano em dezembro próximo.
A razão da publicação que se lê aqui, entretanto, foi o contato muito direto de que me dei conta com os conceitos descrito na síntese que se lê acima.
Dei-me conta, minutos atrás, de que trabalhei das duas da tarde até duas da madrugada. São doze horas de trabalho. É bastante tempo, seja para um músico, seja para um metalúrgico, seja para um advogado, arquiteto, sociólogo e assim por diante…
Antes, eu concordava conceitualmente com o amigo Viana; hoje, concordo em outros níveis de experiência.
É nítida, finalmente, a crise criativa. Há um ano, eu produzia músicas, textos, idéias… Hoje, mal sou capaz de atualizar decentemente os blog de que faço parte.
Compreendo com mais clareza os motivos que me levaram a abandonar a crítica e abraçar a análise; do tipo que se lê neste blog e no designdamusica.wordpress.com, por exemplo.
É impossível dirigir palavras de pura crítica a um cenário que impede categoricamente que um compositor exerça sua capacidade em plenitude. E o fato que desequilibra é simples: a arte é mal remunerada.
Nessas horas, fico pensando em profissionais espetaculares como Edson Gomide, Giba Estebez e Luizinho 7 Cordas. Este útimo já vê no espelho sua idade e é um dos melhores violonistas do Brasil, sem sobra de dúvida, mas ainda é obrigado a trabalhar quase que diariamente para buscar seu sustento, na noite paulistana, cruel e mal pagadora.
E ainda se vê quem fale bobagens sobre o preço da entrada em determinados bares com música ao vivo. Pior: fazem cara feia para o preço do couvert artístico porque ele representa uma ou duas cervejas que o indivíduo deixará de tomar, porque ele próprio sai de casa com o dinheiro contado. O dono do bar? Ele não liga, porque superfatura todos os itens do cardápio.
Para citar Stevenson: “O suicídio cuidou de muitos; álcool e o diabo, do resto”
Essa briga interminável pelo sustento faz recuar o processo criativo de modo deveras comprometedor. Se fosse observada, não a dificuldade, mas o tempo necessário para um músico, ou conjunto deles, preparar uma apresentação completa, rica, resultado de pesquisa, ver-se-ia que é necessário pagar muito melhor por uma única apresentação.
Nobres leitores, cada acorde de violão, de piano, cada nota de um contrabaixo, cada fragmento ritmico de uma bateria… Todos tem caráter alimentar. Tudo se destina a uma dupla muito simples e básica: morar e comer.
Conforme o artista percebe valores maiores, seu tempo de labuta árdua diminui; aumenta o tempo destinado ao processo criativo; conforme aumenta o processo criativo, sobe a qualidade, sobe o nível. Evoluímos como civilização.
Sinto-me esclerosado: vejo-me escrevendo sobre algo que há um ano já era verdade há muito tempo.
Sei que é muito pessoal de minha parte, mas gostaria de ter mais tempo para pesquisar, compor, produzir, mixar e assim por diante. Mas não tenho; preciso de sobreviver.
Minhas objeções? Um governo estéril, que não investe na arte como deveria; uma burguesia apaixonada por qualquer coisa fora das fronteiras; a preguiça da maioria do povo em melhorar e, mais que isso, ajudar a melhorar.
Mas minhas objeções não são baseadas na dificuldade em criar um cenário evolutivo, mas em considerações sobre a sobrevivência intelectual de todo um povo.
