Meus amigos,

A herança está dada. E não cabe passar adiante. Ela é nossa e dela devemos fazer nascer novos frutos.

Nesta ponte,” adverte Lorca…”a vida não é um sonho. Cuidado e cuidado e cuidado.

Nós raciocinamos. Todos os seres vivos pensam. Mas nós raciocinamos. É muito difícil fazer-se ciente disso e arcar com as responsabilidades. Porém, é verdade.

Tudo o que a raça humana sabe se deve ao nosso raciocínio; tudo o que a raça humana não sabe se deve à sua falta.

E com isso construímos um império de intelectos. Mas ainda há intelectos fúteis.

Na verdade, o hiato entre Platão ou Nietzsche e o humano mediano é maior do que o que há entre o chimpanzé e o humano mediano. O reino do verdadeiro espírito, o artista verdadeiro, o santo, o filósofo, é raramente alcançado. Por que tão poucos? Por que a História e a evolução não são histórias de progresso, mas uma interminável e fútil adição de zeros?

Falta um belo bocado para entendermos qual a nossa posição no universo. Nossos cérebros têm sido alvo das próprias distrações, das próprias criações.

Na semana passada o Tigre Asiático foi dado por extinto; um chinês deu um tiro e fez um churrasco com amigos. Ele foi condenado a doze anos de prisão, mas um ser vivo foi condenado ao anonimato eterno.

A única arma contra a ignorância do homem é o próprio homem. Eu entendo que o projeto do universo contempla perdas; estrelas nascem e morrem, explodem e implodem, mas é diferente.

Talvez não conste do projeto universal a teoria da preservação. Talvez a morte e o nascimento sejam os únicos itens constantes da existência.

Porém, nós, humanos, temos consciência de algo além da própria morte: nós sabemos que a morte existe; não só a nossa, mas a de tudo.

Por qual motivo incentivá-la, se ela é natural?

Pena de morte? De modo algum. Quem morram cheios de vergonha, de causa natural.

Quais são as barreiras que impedem as pessoas de alcançarem, minimamente, o seu verdadeiro potencial? A resposta a isso pode ser encontrada em outra pergunta, que é qual é a característica humana mais universal? O medo ou a preguiça?

A sociedade é uma fraude? Nada disso tem relevância? Não vale a pena lutar?

Os olhos que vêem o pássaro são vistos pelos olhos do mesmo pássaro. Foram as asas que me ensinaram a voar.

A caminho de descobrir o que amamos, achamos o que bloqueia nosso desejo.

Para citar meu nobre amigo Rodrigo Theodoro:

…quero viver dignamente e podendo continuar a acreditar que com amor é possível tudo.

Nós existimos. Depois dessa constatação, o que falta para você crer que tudo é possível?

Por que um elefante precisa de ser cor-de-rosa para sair na primeira página do jornal? Ele existe na mesma proporção em que nós existimos. É como no caso do pássaro: você também é visto pelo elefante, um ser vivo digno de aplausos. Como, aliás, são todos. Plenamente.

A consciência de si compreende a consciência do outro.

E, quando se percebe que se é um personagem sonhado no sonho de outra pessoa, isso é consciência de si.

Obs: Todas as citações, exceto a citação de Rodrigo Theodoro, foram tiradas do script do filme Waking Life, do diretor Richard Linklater. Para ter acesso ao texto, basta requisitar em comentário, mas sugiro ver o filme.